quinta-feira, 24 de maio de 2018

A VIDA AO LADO



O período que antecedeu as Olimpíadas foi de desmatamento, derrubadas, desapropriações, tudo em nome da modificação da paisagem urbana e da melhoria dos transportes para que turistas e espectadores pudessem se locomover pela cidade rapidamente. O tal “legado olímpico” nos custou caro. Caríssimo. Atualmente, temos um aquário onde moradores não frequentam, um VLT para turistas no centro da cidade, um BRT sucateado e rodando sob asfalto esburacado. Aliás, para este BRT famílias foram removidas de suas casas para a passagem da via. Sacrifício de uns em benefício de outros. Valeu à pena? Estamos satisfeitos? Logicamente que não estamos. Porém, quem embolsou polpudas quantias desviadas ou superfaturadas está aí, às vistas, rindo da nossa cara.
Cristina Fagundes é uma atriz e escritora, inteligente e observadora do universo que gira em torno da arte cênica no Rio de Janeiro. É dela a ideia do Clube da Cena – coletivo de atores, diretores e dramaturgos que colocam em cartaz esquetes uma vez por semana – que teve vida inicial no Teatro Gláucio Gil e recentemente foi apresentado no Teatro Ziembinsky. Infelizmente o patrocínio não veio, foi “demolido” pela atual gestão da prefeitura e o Clube está aguardando nova oportunidade. Porém, Cristina não se acomoda. Além do Clube escreve para teatro, promove oficinas e reciclagem de atores. Uma guerreira e operária do teatro.
É dela o texto da peça A Vida Ao Lado - em cartaz no Teatro Serrador - história de moradores de um prédio a um mês de ser demolido para a construção de um aquário municipal. É justo isto? Retirar pessoas do seu habitat natural gera conflitos – que Cristina aborda na peça. Tipos atuais, conservadores, modernos, reais na fauna social em que vivemos. Cada um com seus preconceitos não só sobre a sociedade, mas sobre os vizinhos que coabitam o mesmo prédio. O que muda na vida dessas pessoas? Qual o destino final das relações amorosas e profissionais que envolvem os moradores? É assistindo ao espetáculo que você irá compreender a necessidade de se discutir como uma simples demolição gera uma reação em cadeia sobre emoções e comportamentos.
Com o palco vazio, o cenário de Alice Crus e Tuca Benvenutti tem canos conectados como se fosse a tubulação do prédio passando pelas paredes. Sol Azulay assina o figurino de cores cinzas, daquelas pessoas que só seguem suas vidas sem se preocupar em sair da zona de conforto, mas quando chega a notícia da obrigação da mudança, ou dão um colorido às suas vidas, ou caem no buraco negro. A luz de Aurélio de Simone é sempre adequada à quantidade de refletores disponíveis e o que a peça solicita. A trilha sonora, de Isadora Madella contribui para o crescimento dos diversos clímax (ou clímaces).
O elenco é formado por Alexandre Barros, que tem ótimas atuações em variados personagens; Alexandre Varella, que muda de composição de uma criança para um ogro em minutos com grande qualidade representativa; Ana Paula Novellino, a solitária que busca num aplicativo de celular uma nova relação; Bia Guedes, ótima, alternando entre uma empregada doméstica e uma mulher que tem um casamento por contrato; Cristina Fagundes mostrando a força da esposa casada conservadora mas que anseia pela liberdade sexual; Flávia Espirito Santo, a dona flor entre dois maridos que se vê preterida quando o assunto é ter ou não filhos; e, não menos importante, Marcello Gonçalves ótimo como o porteiro do prédio e o menino refugiado.
Cristina Fagundes também assina a direção e sabe o que quer dizer com este espetáculo. Além de mostrar que “a vida não basta” e por isto a arte é necessária (mudando um pouco as palavras de Ferreira Gullar), nos faz pensar e mostra, pela forma como conduz o espetáculo, que somos todos parte de uma engrenagem única: o que acontece com um gera alterações nos outros próximos. Sua marca para o caminhar no palco como nos corredores do prédio e, em especial a cena da madame deitada no chão que, ao se virar, se torna a doméstica limpando, é bastante inteligente. Além disso, Cristina não valoriza as pequenas doses de preconceitos velados nas falas dos personagens, as maldades, e nisso ela ganha pontos, deixando que parte do público perceba a crueldade de uma piada.
Resistir é preciso! Cristina Fagundes mostra isto quando joga nas 11 posições (escreve, dirige, atua e produz). Um espetáculo de altíssimo nível. Bem dirigido, bem escrito, atuações competentes, tudo com pouquíssima verba e mostrando que é possível – e necessário – fazer teatro neste período de demolição da classe artística. Vida longa para “A Vida ao lado”!

terça-feira, 1 de maio de 2018

[nome do espetáculo]


Inventar um projeto novo de uma hora para a outra e rezar para ser selecionado. Quem nunca? Foi num edital de 2010 que entrei propondo escrever um livro de contos. E fui agraciado com a seleção. Deste patrocínio nasceu meu segundo livro: “Cuidado com os ovos!”. Agradeço até hoje à FUNARTE pela confiança. “Os ovos” – como chamo carinhosamente – me rendeu boas risadas, lançamentos, tardes de autógrafos, viagem e lançamento dele traduzido para o espanhol. Nunca antes na história deste país se teve tanto investimento em cultura quanto naquele fim do segundo governo Lula. De lá pra cá... você já sabe.

E é sobre isso que fala o musical [nome do espetáculo] em cartaz no teatro Eva Herz. Calma, você não leu errado. O nome da peça, do musical, é [nome do espetáculo] mesmo. Original da Broadway – texto de Hunter Bell com música e letra de Jeff Brown. Cá em terras brasilis, versão foi realizada a 10 mãos. Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Luiza Vianna e Tauã Delmiro mergulharam de cabeça, e acertaram em cheio, na história de uma dupla de artistas do teatro musical que têm pouco tempo para inscrever uma nova peça num edital. E sabe o que eles contam? Uma fictícia história de uma dupla que tem pouco tempo para inscrever uma peça num edital! Não, eu não copiei e colei a frase duas vezes. É o famoso meta-teatro. Neste caso, Meta do Meta Teatro. Uma história que conta uma história de uma história de teatro. Entendeu? Fácil!

Os atores Caio Scot, Caro Berres, Junio Duarte e Ingrid Klug, acompanhados pelo teclado de Gustavo Tibi, perceberam que esta peça é o ideal para mostrarem seus talentos e competência, tanto vocal quanto interpretativas e estão ótimos em cena.

A cenografia de Cris de Lamare é elegante e funcional, como sempre. Não apenas quatro cadeiras estão ali. São cadeiras com bolsões no verso, persianas no fundo, fita crepe no chão demarcando espaços. O que deu para fazer com pouco dinheiro – mas é só disso que precisa a peça! – e com qualidade impecável. O figurino de Tauã Delmiro é divertido e colorido. A luz de Paulo Cesar Medeiros é sempre marca de qualidade. Gustavo Tibi além de tocar durante a peça assina competente direção musical.

Tauã Delmiro assina uma direção ágil, inteligente, segura. Várias cenas bem pensadas. Mas duas, em especial chamam a atenção: quando os atores em cima das cadeiras são girados pelos colegas, fazendo uma brincadeira com “palco que gira”, numa peça sem dinheiro. E em outro momento, um avião é construído com as cadeiras e a parte da cadeira giratória vira hélice. Uma beleza!

Tenho repetido muito palavras elogiosas aqui neste espaço: competência, garra, talento, beleza, voz potente, atuação correta, entrega, parceria... mas acredito que nos momentos em que a verba é pouca, os espectadores são cada vez menos nas poltrona e o incentivo financeiro quase nenhum, é que surgem os grandes espetáculos, a criatividade aflora, e toda a equipe se une para este ato de resistência que é o teatro.

[nome do espetáculo] é desses musicais com canções originais que nos faz acreditar que é possível e necessário sonhar com dias melhores, um futuro onde público e palco estejam tão unidos quanto aquelas peças que ficam 30, 20, 10 anos em cartaz. Exemplos não nos faltam: A Bofetada (30 anos), Minha mãe é uma peça (11 anos), Beatles num céu de diamantes (10 anos) são desses projetos realizados com garra inicial e cujo resultado ainda está por aí embelezando os teatros por onde passam.

Corram já para o Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, centro do Rio, e assistam, e aplaudam [nome do espetáculo]. Saímos do teatro com esperanças renovadas! Imperdível!